
A fraude em pagamentos não é um incidente pontual, mas um risco estrutural para os negócios das empresas brasileiras. Uma vulnerabilidade que é cara, recorrente e profundamente enraizada nos processos internos em muitos setores da economia.
No universo B2B, onde o ticket médio é alto e o boleto segue como principal meio de pagamento, esse risco se multiplica. Isso porque a operação financeira diária envolve notas fiscais, conciliações, prazos apertados e uma cadeia extensa de fornecedores, exatamente o tipo de ambiente fragmentado em que as tentativas de fraude prosperam. Os golpes hoje se aproveitam de brechas em fluxos manuais, integração fraca entre sistemas e confiança excessiva em e-mails, PDFs e cadastros não verificados.
Em outras palavras, o padrão é claro: quando o processo depende excessivamente de operação humana, a margem para erro vira margem para prejuízo.
E o maior alvo desses golpes acaba sendo o boleto, que é o método de pagamento dominante nas transações B2B, conforme visto no primeiro capítulo deste estudo.
Adulteração de dados, clonagem, interceptação de documentos por invasão de e-mail, QR Codes falsos, boletos de concessionárias forjados e cobranças duplicadas fazem parte de um repertório de artimanhas que cresce em sofisticação e profissionalização.
Diante do crescimento acelerado do B2B e da complexidade setorial, fica claro que o boleto não só é um instrumento de pagamentos, mas também pode ser fonte de perdas financeiras e riscos desnecessários.
A seguir, analisamos a escala do problema, os gargalos e os caminhos para um B2B mais seguro, transparente e eficiente, com processos robustos que deixam de ser custo e passam a ser economia real.
Um resumo do que você vai encontrar:
Quase 6% dos boletos analisados (totalizando o valor de R$ 2,08 bilhões) têm como emissores CNPJs inexistentes na base da Qive. Desses, mais de 11 mil boletos de quase 900 emissores diferentes, totalizando um montante de R$ 69,5 milhões em valores dos documentos, foram emitidos por CNPJs que não constam na base da Receita Federal. Apesar de nem todos necessariamente indicarem fraude, esse cenário de desconhecimento já aponta para uma vulnerabilidade importante.
Estima-se que gastos com multas por atraso e inadimplência de boleto cheguem a R$ 1,3 bilhões em 2025 (janeiro a outubro)
Notas possivelmente frias totalizam R$ 9,5 bilhões em valores nos documentos analisados no período. Quase 1% das notas fiscais é manifestada pelo tomador (quem contrata e paga o produto) como “Desconhecimento da operação” e “Operação não realizada”
O boleto bancário é o principal meio de pagamento no B2B, conforme apontado no capítulo 1 deste Panorama do Contas a Pagar 2026: a análise de Como as empresas compram e pagam no Brasil.
Os principais motivos que explicam a preferência pelo método de pagamento são seu alto controle e rastreabilidade, com destaques para os pontos que reforçam sua automação e segurança. No entanto, o boleto não é infalível, e, quanto mais fragmentado o fluxo de processamento, maiores as chances de vulnerabilidade.
Apesar da alta efetividade nas transações de boletos, ainda há pontos cegos e perdas financeiras
Para efeitos de análise, ao observarmos o período de janeiro a setembro de 2025, a Qive processou:
3,68 milhões
de boletos
R$ 68,6 bilhões
em valores apontados nesses documentos
175 mil
emissores de boletos nessas transações
Desse total, a análise mostra que foram pagos ou estavam em aberto/válidos
dos boletos
em valores de documentos
No mesmo período analisado, foram contabilizados, entre todos os boletos processados, um percentual significativo de CNPJs não reconhecidos na base da Qive. Tratam-se de boletos emitidos por CNPJs que não constam no documento fiscal, e podem indicar CNPJs que foram desativados, apresentam alguma divergência cadastral junto ao Fisco, não aparecem na base da Receita Federal ou estão diferentes do documento fiscal.
(6% do total) vieram de CNPJs não reconhecidos
em valores nesses documentos
Desses, mais de 11 mil boletos de quase 900 emissores, totalizando um montante de R$ 69,5 milhões em valores dos documentos, não constam na base da Receita Federal, sugerindo um grande risco de fraude.
Cabe aqui fazer uma ressalva: nem todo erro é fraude, mas a inconsistência sem rastreabilidade cria riscos desconhecidos, pois a linha entre equívoco e perda financeira é, na prática, muito tênue.
Dessa forma, os milhões hoje sob vulnerabilidade cadastral não representam apenas uma anomalia estatística. Eles evidenciam o tamanho da zona cega que ainda existe entre o fiscal e o financeiro.
Esse volume revela que manter o boleto como instrumento seguro depende de um novo patamar de governança que inclua:
Monitoramento ativo
Conferência automatizadaa
Visibilidade segmentada por setor e perfil de operação
Insight
Fica evidente que, em ecossistemas complexos e que movimentam altos valores, nenhuma empresa deveria depender de checagens manuais, suposições operacionais ou reservas orçamentárias para absorver erros que poderiam (e deveriam) ser eliminados na origem. A automação não é apenas uma conveniência, e sim uma infraestrutura básica de proteção financeira.
Os dados internos da Qive mostram que os setores (os tomadores - quem contrata e paga a compra) mais vulneráveis a boletos emitidos por CNPJs não reconhecidos — e, consequentemente, mais expostos a erros no pagamento — são, naturalmente, aqueles que concentram o maior volume de notas transacionadas no B2B brasileiro: Varejo e Indústria.
TOP movimentações por CNAE
Fonte: dados internos Qive (filtro se aplica a volume de 2025)
Esse panorama é um reflexo de cadeias de suprimentos extensas, alto giro operacional e grande diversidade de fornecedores. É uma concentração, portanto, que não ocorre por acaso: quanto maior o fluxo de compras, integrações e pagamentos, maior a probabilidade de entradas inconsistentes, cadastros desatualizados e documentos que escapam dos controles tradicionais. Embora essa escala seja essencial para o funcionamento desses setores, ela também amplia o risco.
R$ 50 milhões
é o total que, juntos, Varejo e Indústria receberam em 2025 em boletos cuja origem não consta na base da Receita Federal.
É crucial entender que esses valores não são, por definição, necessariamente fraudes ou perdas, mas, sim, inconsistências de compliance que se tornam um enorme desafio de prestação de contas.
Em outras palavras, Varejo e Indústria não apenas movimentam boa parte do B2B — eles também carregam o maior desafio de compliance e de mitigação de riscos dentro do ciclo financeiro.
Ao analisar o risco sob a ótica dos títulos que falharam (boletos cancelados, bloqueados ou baixados), entende-se onde a inconsistência cadastral se manifesta como risco real:
O setor de Infraestrutura acumula o maior montante em títulos invalidados de origem desconhecida/inconsistente: R$ 760,9 mil. Ele é seguido de perto pelo Varejo (R$ 758,2 mil) e Serviços (R$ 500,4 mil), mostrando que o risco de títulos inconsistentes atinge pesadamente setores vitais da economia.
Em termos de quantidade de boletos que falharam, a Infraestrutura também lidera o desafio (90 boletos), seguida pela Indústria (79 boletos) e pelo Varejo (48 boletos).
Para o tomador, esta é uma questão crítica: cada boleto com origem incerta representa um ponto cego na auditoria interna e uma vulnerabilidade maior a transações fraudulentas.
Insight
Garantir a prestação de contas no volume total de R$ 68,6 bilhões exige que o compliance consiga lidar com os R$ 2,08 bilhões que podem estar hoje sob vulnerabilidade cadastral, um desafio que exige uma solução de visibilidade que vá além do básico.
O número de empresas endividadas no Brasil atingiu um patamar histórico em 2025, segundo dados do estudo de inadimplência empresarial da Serasa Experian, divulgado em março deste ano.
31,9% das empresas ativas no país enfrentam algum nível de inadimplência
7,3 milhões de empresas registraram contas em atraso
R$ 169,8 bilhões é o total das dívidas empresariais
7,3 é a média de contas vencidas por CNPJ
R$ 3,1 mil é o valor do ticket médio da conta vencida
Fonte: Serasa Experian
Para entender o impacto financeiro desse ecossistema de riscos e inconsistências, a Qive cruzou sua base com os dados do levantamento da Serasa Experian: analisaram-se as NFes do período (janeiro a outubro de 2025) que indicam boleto ou duplicata mercantil como forma de pagamento dos três setores estudados pela Serasa Experian (Serviço, Indústria e Varejo). Multiplicou-se, então, o total de CNPJs encontrados pelo percentual de inadimplência estimado pelo estudo do Serasa para o setor, pela média de contas em atraso por CNPJ (7,3, segundo o estudo da Serasa), pelo ticket médio do setor, por 2% (limite legal de multa por atraso previsto no Código de Defesa do Consumidor).
O resultado é contundente: mais de R$ 1,34 bilhão em multas de atrasos em boletos estimadas apenas entre janeiro e outubro de 2025.
Este valor é dividido em:
O cenário dessa inadimplência é dominado pelo setor de Serviços, que concentra 53% das empresas inadimplentes, seguido pelo Comércio (34,8%) e pela Indústria (8%).
Esses dados reforçam que o risco de exposição financeira está amplamente distribuído entre os principais motores da economia brasileira, e evidenciam a necessidade de soluções de gestão que tragam visibilidade e controle sobre o ciclo de pagamentos.
Esses números mostram ainda que o custo da falta de visibilidade não está apenas em fraudes ou inconsistências, mas também em ineficiências operacionais e falhas no controle de pagamentos.
E aqui está o ponto de virada: já que não é possível eliminar a inadimplência intencional, é totalmente viável reduzir atrasos não intencionais — aqueles causados por falhas humanas, atrasos de comunicação ou falta de centralização de informações.
com indícios de inconsistência ou risco, totalizando quase 1% do volume total dos documentos fiscais processados, e o montante de R$ 9,5 bilhões em valores nesses documentos.
Insight
Esse diagnóstico fiscal revela que as empresas podem estar expostas a riscos mesmo sem realizar o pagamento de um boleto. Uma simples nota fria emitida indevidamente no CNPJ da empresa já é suficiente para gerar responsabilidade tributária, caso não haja uma manifestação de desconhecimento no prazo legal.
Em outras palavras, o risco não está apenas no boleto “falso” ou no pagamento indevido, mas também na emissão indevida, que pode gerar multas automáticas e custos fiscais imprevistos.
Essa é uma camada adicional de vulnerabilidade que complementa a análise dos R$ 2,08 bilhões em boletos de origem incerta, destacando que o compliance tributário e o financeiro caminham lado a lado.